sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A FURA-FILA

Esta é mais uma dessas historinhas-chão que se ouve a perder a conta durante os dias que se sucedem na modorra das rotinas, contadas tão simplesmente para atravessar o tempo, sem pretensão alguma e por pura falta de coisa melhor para dizer. Historinhas rasas – tenho tédio disso e, com franqueza finjo que nem ouço.
Escrevo apenas. Escrevo com o saco cheio! da falta de caráter de uns e outros (muitos uns e outros, diga-se de passagem).
Vinha a macilenta senhora de olhar libertário, rastejante e lépida, bradando contra a indignidade que nos infligia aquele monte de caixas eletrônicos deficientes, com a maldita operação de saque de dinheiro em apenas uma da fileira de máquinas lindas e limpas. Dizia: “(...) bem a cara desses bancos!”.
E – eu Cazuzeando: como uma “metralhadora cheia de mágoas” - a dona revoltosa, grandiloquentemente, inflamava os presentes em desabrido protesto contra os sistemas desleais que nos humilham na farsa do prático cotidiano capitalista, atiçando um a um.
Incitava o guarda envidraçado do banco, a menor recém-gestante pouco à vontade numa calça fusô de funkeira, os inúmeros aposentados, eu; enfim, toda essa récua de clientes da angústia.
Ia ao seu custo, pela insistência, combinando revolta aguerrida com a rala adesão que obtivera. A coisa já aproava para uma operação contundente no local, a repercutir na mídia e em grita das ruas.
Enquanto cooptava-nos ao seu motim para a derrubada revoltosa do sistema, a despeito da turba que se apinhava na fila, ia passando as posições livremente, caminhando, professoral, em direitura à única máquina cuspidora de dinheiro, já com seu cartão plástico bancário – com insígnia de very important person – a postos.
E maldizia a fábula dos lucros espúrios dos banqueiros desonestos, a precariedade dos serviços públicos – ia se chegando -, criticava as inoperantes políticas públicas – mais perto -, narrava duma enfiada os escândalos políticos – francamente defronte – advertia sobre o próximo processo eleitoral... - chegou!
Silêncio absoluto de segundos. Ela estava diante da máquina. Só ela e aquele símbolo da opressão financeira. Todos aguardavam a ação mais adequada ao discurso: um soco destruidor no display daquela geringonça, quem sabe?! Talvez um rasgado exemplo antológico de retórica a plenos pulmões?! Violência e dramaticidade?!
Mas ela, com toda a paz dos anjos, introduziu o cartão segundo o tutorial eletrônico, manejou o mecanismo e zap!, recolheu várias cédulas fetidamente novas.
Contou-as com a precisão de um sovina e a presteza de um caixa experiente; separou algumas, realinhou as efígies, dobrou-as, colocou no bolso frontal da camisa de flanela rota, fez o mesmo com as outras e depositou com o carinho maternal no seu embornal de brim.
Escorreu as mãos pelas grenhas, ajeitou os óculos de pernas tortas, empertigou-se e, em passos firmes e olhar libertário, levou, lépida, o seu corpo esquálido para fora do banco junto com o olhar do público, deixando apenas o amargor do recalque e da frustração de quem realmente somos e queremos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

GUERRA DE ALMAS TORCIDAS - FUTEBOL E VIOLÊNCIA

As lamentáveis imagens protagonizadas por uma centena de bárbaros no último dia 08 de dezembro, durante uma partida de futebol entre clubes do Paraná e Rio de Janeiro, num Estado sulino, tem servido para rechear noticiosos do mundo todo com o que temos de mais cruento em nossa condição de insegurança social. Demonstração de geração falsamente espontânea de um mal repentino, de fúria de massas, de intolerância e de estupidez, de ódio, de violência gratuita, de truculência.
Para quem não teve a oportunidade – ou estômago - de assistir tão indigestas cenas, eternamente perplexo, de memória, carrego horríveis flashs: grupos reunidos em deliberados massacres a contendores caídos, alvejando suas cabeças com clavas e pisões insanos, com o propósito literal de esmagá-los; caídos e inconscientes, rivais sendo despojados de suas roupas; e já desfalecidos, não eram poupados dos incessantes e intensos golpes aplicados com total energia.
Num jogo de empurra-empurra, órgãos públicos, entidades esportivas, clubes e polícia se eximem de culpabilidade inculpando uns aos outros.
Foi uma guerra de torcidas. Entenda-se: um pessoal com alma distorcida.
Um grupo de maníacos. Sim, uma geração de doentes, porém não mais que o eco do que vimos presenciando incontavelmente no cotidiano da violência em todos os seus horrendos matizes, por todo canto, sejam habitats urbanos, meios rurais, estádios de futebol; estejam seus agentes disfarçados de torcedores, grupos de vândalos pretensamente libertários; sejam malfeitores assumidamente criminosos.
Somou-se às inumeráveis cenas diárias de horror, triste e perigosamente banalizadas, em caminho de uma aparente normalização em nossos corações e mentes.
Qual o motivo, afinal de contas, dessa carnificina? São muitos, com um único efeito psicossocial: permitir que grassem tipos assim violentos: impunidade, falta de educação social, distribuição perversa de renda e oportunidades, e uma cultura tantalizante de consumo. Ora, as psicopatas não brotam do chão!
Cadeia, só? Será que resolve? Pena de morte? Deus o livre! - não há. Radical e temerário que pareça o desejo de extirpar tipos tão execráveis, o fato é que não inspira mais a menor fé que seres tão brutais como esses se resolvam por encarceramento ou em programas socioeducativos.
Mais trágica é a certeza de que, seja pela extinção dos criminosos indigitados ou seu isolamento do corpo social - e ainda que nossos esforços prevencionistas e mecanismos de justiça e polícia se apurem doravante - a reprodução de mafiosos facínoras desse naipe não cessará.
Não, o futebol não é só um esporte, como alegam uns, em favor do sistema desportivo, atribuindo o problema à má índole de um grupelho ou supondo ter havido apenas um acidente, um fato isolado. Deveria ser apenas um esporte, mas não é.
O futebol não é só um esporte, segundo o que fizeram dele os mesmos cínicos defensores do lucrativo negócio, que negligenciam aspectos de segurança durante encontros de grandes multidões antagonistas.
O futebol, um dos mais eficazes instrumentos de manobra de massas, é uma indústria altamente rentável elevada à condição de quase religião, cuidadosamente cevada por uma aparelharem política e midiática, que, por falta de uma democracia cultural e da inexistência de sentimentos mais nobres de pátria e amor-próprio, é oferecida por gente do entretenimento como conforto espiritual infalível a uma turba deseducada e brutal, carente e adoecida, um câncer metastático no meio de gente saudável.
Não é à toa que torcedores entoam com esmero o hino de seus clubes, enquanto a maioria de nós não sabe na íntegra o hino nacional; que se persigam carreiras e vidas de atletas com sofreguidão de paparazzi; que os atores faturem milhões e os espetáculos movimentem recursos estratosféricos; e que saibamos um escrete de cor e salteado quando nem mesmo nos lembremos do nome do candidato de escolha nas últimas eleições.
Não é só o futebol, não. Tem mais instrumentos na orquestra: telenovelas, programas de auditório, igrejas, jogos de azar, música ruim e drogas de todo tipo (lícitas ou não). Mas estes entorpecem. De todas as cortinas de fumaça da desgraça, com efeito, o melhor cenário para a liberação mais expansiva de ódio e crueldade, tem sido o espetáculo do futebol.

Triste! Triste! Porque o futebol, embora envolvente e apaixonante, é tão somente um jogo, enfim!

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

MONÓLOGO: ENCONTRO VIRTUAL – DRAMA, DESEJO E MEDO DE “UM”


MONÓLOGO: ENCONTRO VIRTUAL – DRAMA, DESEJO E MEDO DE “UM”
Tenho medo que alguém maníaco invada meu corpo a salvo, intacto; desconstrua minha identidade, ponha a descoberto meu mundo que aparece equilibrado aos olhos estreitos de meus sólidos circuitos sociais – por vezes, sócios na dissimulação da dor e da hipocrisia...  E por fim, que esse ser intrujão – facínora - vilipendie também minha alma.
Porém, é impossível não admitir o quanto me atrai e regozija a ideia de ter você assim tão perto, tanto acessível - e em tão inexpugnável segurança. Estou defeso da fúria das frustações, dos desencantos que corrompem o ânimo, que desiludem da alegria, que esmagam impiedosamente sonhos e projetos, desesperando a esperança, aniquilando convicções, pondo em risco meu mais apreciado desvelo: eu, o “um”.
Tal como uma seiva, uma energia conveniente que perpassa o corpo e vai ao espírito, ao fundo do coração até, e mais...!
Compulsivamente procuro a razão de gostar desse contato à distância - se bem haja a latência do medo de descobrir ao final, que o comportamento flui involuntário - fruto de distanciamento, da deseducação e perda da habilidade de me expor.
Quem sabe não seja então – me arrogo do estandarte - uma deliberação consciente? Mas por quê? E por que continuo procurando?
Desculpe-me tanta confusão, mas é que o mundo é cruel!
As pessoas são cruéis!
Os sistemas são cruéis!
Eu não sou. Não sou cruel. Não de caso pensado. Se muito for, terei sido ao final da vida, só mais um...
O “um” que serpenteia, ao lado dos bilhões de outros “uns”, com a corrente dos acontecimentos vorazes do mundo, as falácias, o consumo, o dissabor dos dias que passam sem efusões, sem carinho, sem amor.
[Desculpe-me o leitor que inocentemente topou com esse palavrório lamentoso, esse monodrama, essa maçada! Tenha que é um pensamento desordenado em voz alta, desses que a gente tenta compenetrar em meio a uma multidão que grita – uma incontável quantidade de “uns”].
Ah! As inúmeras vezes em que nos traímos: “somos, cada qual, o amor da vida de alguém” - li da confissão de Max Tivoli.
E sonhamos tão real que esquecemos os acordos prementes, irrevogáveis: as obrigações românticas esponsais (e as esponsais sem romantismo), a educação dos filhos e as contas – de que não pode haver distrato; compromissos assumidos noutro mundo, quando o “um” ainda não existia para se fazer dois – faltava base, faltava o outro “um”. Sempre faltará o outro “um” a fazer dois.
Porque o “um” que refiro é inteiro indivisível, sob a pena de se condenar a nada, se fracionado.
Dele se empresta e se usa; ele usa-se e empresta-se a si mesmo, mas depois se recolhe, aquieta-se, reorienta-se em busca doutros “uns”. Mas nunca haverá “um” a fazer dois, embora dois se iludam num “um” artificial e transitório.
A voz do interlocutor lhe falta. Esse “um” está incompleto! A percepção do primeiro está incompleta então!
Este busca evitar enredamento em armadilhas do coração – deslumbramento de quem ainda acredita (mais moderadamente do que outrora) na fusão para o “dois”, mesmo apostando que não acontecerá. Nunca por muito tempo...  Ou simplesmente, nunca.
Cheira fragrâncias e confere dinamismo à foto parada. Fingem-se, de olhos fechados, cenas felizes de prazer e luxúria, quando não uma nova vida, um destino novo. Excita-se, mas ao cabo de algum tempo, se resigna, se desconecta da virtualidade, como fizera tempo antes, a fugir do real.
Ele é só o que eu sou: incautos “uns”, ingenuamente procurando um dia tornarem-se dois.

sábado, 8 de setembro de 2012

Crônicas dos Coveiros do Cemitério Verde - XXXIII - DESOLAÇÃO - FIM


XXXIII – DESOLAÇÃO - FIM
É! Não houve sobrevivente.
Os jornais espetaculares estamparam a chacina daqueles aventureiros.
Tudo desolação e miséria que a tristeza não dá conta!
Ai meu Deus! O infortúnio daqueles homens! Quanta mágoa! Quanto rancor! E agora, quem vai enterrá-los juntamente com tantos outros corpos sem alma?
Quem vai enterrar esses homens perdidos? Quem vai servir de coveiro para os infelizes?
Ai meu Deus!
Agora é só escombro! Agora todos os corpos estão sem alma...
Porca foi encontrado com tiros no peito, estirado ao lado de seu melhor amigo, Miguelito. Ambos guardaram nos rostos a expressão de uma amizade eterna.
Seredião, o único evangélico combatente, pereceu com os joelhos curvados, uma bíblia de bolso numa das mãos e um revólver na outra.
Lupércio e Divina, que tinha vindo em reforço para o conflito, foram esmagados por uma escultura monolítica de mármore europeu que teria se desprendido com o abalo de explosão.
E agora? Todos os personagens estão terminados inertes... Uma equipe procura nas ruínas alguma fonte de vida. A imprensa está presente. A turba de curiosos também... Ai meu Deus! Tende piedade de nós!
Os operários I e II - construtores e jardineiros -, se dividiram entre carpideiras e contabilistas. Os últimos, dissimulando a alegria, calculavam o lucro da reconstrução da cidade dos mortos. Os primeiros mentiam se importar.
Literalmente, mal esperaram a poeira assentar: uma funcionária da Associação dos Cemitérios Privados pregava uma placa “O CEMITÉRIO VERDE ADMITE COVEIROS”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

As Crônicas dos Coveiros do Cemitério Verde - Capítulo XXXII - CAMPO SANTO - CAMPO DE BATALHA


XXXII - CAMPO SANTO - CAMPO DE BATALHA
Os rumores eram cada vez mais intensos e depurados. Os boatos tomavam feição de notícia. Os sepultadores acompanhavam tudo pela tevê. “Não podiam evitar o inevitável...”
Prevendo que o embate, de ideológico e político se transformaria em combate armado trataram de operar a logística da resistência.
Remeteram para todas as suas diretorias regionais, instruções de armazenamento alimentar, suprimentos de armas, vigilância dia e noite, estoque de munições, remédios e roupas. Principalmente, exortaram os colegas a concentrarem o maior número de coveiros por cemitério e que a concentração deveria ser feita de maneira a mais discreta possível em, no máximo, três Necrópoles estrategicamente localizadas em regiões populosas de grande atividade comercial.
Laurenciano e seu grupo distribuíram os combatentes nos cemitérios Verde, Azul e Roxo. Grandão e Neguinho-Buiú trataram das armas conseguidas a preços baixos de traficantes e nóias. Além dos alimentos que cada um trouxe de casa, trataram de plantar provisões de mandioca, milho e batata em centenas de covas de terra abandonadas. Com nenhuma experiência de guerrilha acreditavam-se assaz munidos e fortes para durarem meses.
Não tardou. O chefe da operação repressora entrou com o ultimato de abandonarem o local, senão por bem, pela força.
A resposta gritada por Burquinha posteriormente tornou-se refrão vazio duma canção popular que ninguém conhece: “Sem dignidade não existe diferença entre vida e morte.”
O cemitério cercado, ninguém sabe de onde partiu o primeiro disparo, mas houve repentina saraivada, um trovejar de estampidos.
Burquinha, com lágrimas nos olhos azuis, danou a correr aos gritos de “filhas das putas”, com dois revólveres nas mãos descarregando a esmo.
Foi morto com tantos furos que seu corpo resultou total e completamente desfigurado – contaram-se cento e quatorze projeteis na autópsia.
Retardatário que foi socorrê-lo recebeu uma única bala na cabeça e sequer gemeu.  Caiu perpendicularmente ao lado do companheiro, formando uma cruz.
As mulheres e crianças até então seguras, estavam confinadas num barraco onde guardavam os materiais de sepultamento, e agora também suas histerias.
Soldados, sorrateiramente, saltaram os muros, armados com pesados calibres.
Ao sinal de um tilintar – que hoje se supõe da queda de um ancinho -, abriram tantos buracos na edificação de madeira quantas balas cada uma das trinta e seis armas permitiu.
Na devastação daquele barracão nenhuma alma sobreviveu.
Mais mortes rápidas: cinquenta e quatro funcionários rebeldes foram surpreendidos e mortos num brutal e sumário fuzilamento.
Laurenciano, Grandão e Neguinho-Buiú foram cravejados de balas, em franco enfrentamento com os adversários.
Não se apurou a responsabilidade de quem teria lançado explosivos que destroçaram sepulcros e corpos vivos. Vieram à superfície milhares de corpos que jaziam há anos quietos em suas campas. Capelas e jazigos foram abaixo.
A operação não durou vinte minutos.
Nos outros focos de resistência espalhados pelo país, os que não sentiram os efeitos ruinosos do combate se renderam, e seus líderes foram aprisionados.

domingo, 26 de agosto de 2012

CRÔNICAS DOS COVEIROS DO CEMITÉRIO VERDE - CAP. XXXI - GREVE


XXXI - GREVE
A greve, que teve início na semana subseqüente ao triste episódio, já durava quinze dias.
Repercutiu estrondosamente nos meios de comunicação.
Por todo canto, os cadáveres apinhavam-se nos portais dos cemitérios, nos hospitais e igrejas; o ar era irrespirável.
Uma comissão foi chamada a debater e obteve promessas de reavaliação da insalubridade, aumento salarial, escalonamento de folgas, adicional de penosidade, planos de cargos e carreira, assistência médica e odontológica, entre outros itens da pauta original.
Cessaram a paralisação ameaçando retomá-la em breve se não fossem cumpridas as exigências, sobretudo a apuração e punição dos assassinos de Trindade.
Retornaram aos trabalhos imediatamente para normalizar a caótica situação, determinando que os fornecessem sem demora equipamentos de proteção e segurança. Pela primeira vez a classe recebeu material tinindo de novo – eram botas com revestimento duplo, luvas térmicas, luvas descartáveis, três jogos de uniforme, máscaras protetoras e tudo o mais necessário para o enterramento em massa.
O trabalho empatou: zero a zero em três dias.
As visitações aos cemitérios se multiplicaram em muito além dos frequentadores habituais.
Visitantes de outros segmentos da sociedade compareceram: repórteres, estudantes, religiosos, lideranças negras e homossexuais.
Os repórteres queriam matérias para os seus jornais. Os estudantes estavam à procura de temas para trabalhos acadêmicos. Os representantes das minorias estavam em solidariedade.
Os visitantes habituais sim, estes serviram de fiel da balança à ilusória aceitação do movimento pelo grande público.
Segundo enquete realizada por Burquinha, mais de oitenta e cinco por cento era terminantemente contra a greve; outros mais de cinco por cento dos entrevistados acreditaram mesmo absurda a idéia de coveiros terem ousadia de formar alguma entidade e reivindicar direitos.
Quatro por cento se negaram a comentar. Menos de um por cento: essa a proporção do apoio popular.
A estatística pungia o coração dos sepultadores.
O tempo corria de par com a vontade da categoria de ter melhorias atendidas.
Nada mudara. Então reiniciaram a greve. Desta vez com a firmeza de só retornarem com negociações acompanhadas pela imprensa e pareceres de autoridades trabalhistas devidamente registrados.
A greve se alastrou por todo país. Em algumas regiões se seguiram conflitos e confusões.
Nos interiores houve pressão dos prefeitos, dos religiosos, da polícia e das populações. Chegaram notícias de confrontos entre sepultadores e as guardas municipais, demissões em massa, ataques e apedrejamento às casas de coveiros... Tiros... Mortes...
Esteve presente no Cemitério Verde o presidente da Associação dos Cemitérios Privados, acompanhado de muitos assessores, jornalistas e próceres políticos.
Não cederam sequer a questões menores como adaptação das acomodações e pagamento integral das horas extras com índices e cálculos equiparados aos dos demais trabalhadores da nação.
Sua contraproposta ficou muitíssimo aquém das expectativas dos trabalhadores. A greve continuou.
Acumulavam-se os féretros.  Alguns caixões estavam estourados. Outros, menos resistentes deixavam vazar fluídos cadavéricos.
As forças do exército, bombeiros e policiais foram chamadas para se ocuparem de enterrar os esquifes que já somavam mais de três milhões.
A resistência era férrea dos dois lados.
A atrapalhação dos assessores de todas as esferas de governo desconcertava os chefes executivos e minava antecipadamente as futuras candidaturas.
A sociedade estava em comoção pelo terror das doenças de transmissão aérea.  O povo mascarou-se contra a atmosfera infecta. Uma tonelada de especialistas da saúde falava diuturnamente nas televisões.
Os homens inaptos trabalhavam alucinantemente sob orientações técnicas de autoridades sanitárias, mas não conseguiam vencer a tarefa, além de que, em meio ao bulício e atividade frenéticos, não fechavam adequadamente as paredes mortuárias. Contrariavam a profundidade mínima exigida pelo olfato humano nos sepultamentos em covas aterradas.
Realmente as forças armadas, os homens de segurança e salvamento não tinham eficiência necessária para rechaçar quadro tão dantesco.
Os funcionários do Cemitério Verde e toda categoria foram sumariamente exonerados, uma vez que os tribunais julgaram o abandono de serviço essencial. A greve foi julgada ilegal.
Seus líderes e famílias foram perseguidos.
Durante as três semanas de greve desde o recomeço, iam às ruas pela manhã e apresentavam seus discursos e faixas; depois voltavam para suas casas, assediadas por oceanos de gentes indignadas.
Sofreram ofensas verbais e graves agressões físicas.
Os que tinham mulher e filhos os levaram para o cemitério e decidiram não mais arredar o pé enquanto as demissões não fossem anuladas e as reivindicações atendidas.
Outra vez os institutos mostraram sua intransigência, escusando-se de apresentar razões ou inclinação para solução pacífica - forma, aliás, pelas quais parece terem se cristalizado.
As autoridades policiais, sanitárias, executivas, legislativas e judiciárias não toleraram mais de quatro reuniões com os coveiros. Determinaram a imediata remoção dos revoltosos.
Nos meios de comunicação pouquíssimos analisavam as circunstâncias à luz da razão. No mais, muita notícia tendenciosa e desinformação. As bocas já diziam horrores de um conflito armado.

segunda-feira, 23 de julho de 2012


XXX - FENACOVEIRO
Laurenciano foi eleito Secretário Geral e Burquinha, Secretário de Comunicação. O Retardatário ficou com a Diretoria da Região Sul. As outras diretorias regionais ficaram a cargo dos filhos de cada região.
A primeira audiência de negociações foi conseguida com muito custo, e a reunião foi decepcionante. O presidente da Associação de Cemitérios Privados recebeu a inaudita comissão com tamanha indiferença, que por instantes abalou a firmeza de propósito dos trabalhadores.
Em quarenta minutos expuseram seus problemas e possíveis soluções, o presidente, displicentemente, disse que avaliaria a pauta de reivindicações.
Duas semanas, nenhum contato, nenhuma manifestação.
Instaram em contatar o grupo de empresários e foram informados da impossibilidade de atender a mais de noventa por cento das propostas.
Tomaram diferentes iniciativas: procuraram amparo jurídico e apoio de diversas assessorias; recorreram à imprensa e acordaram uma passeata conjunta com outros trabalhadores e outras minorias.
Cinco meses, nada conseguiram. Sequer os fidalgos se dignaram a barganhar os exames médicos periódicos.
Novas passeatas, agora em vários pontos do país. Aparições na imprensa; apoios de políticos supostamente humanistas; pleitos em tribunais de trabalho, associações com outros grupos, etc.
A categoria ganhou espaço nas gazetas e nos comentários do povo em geral. Tanto uns quanto os outros não criam no sucesso dessa inovação, apostavam mesmo que tudo terminaria logo.
Nove meses de pressão, Laurenciano propôs greve: “Não tem jeito, eles não aceitam negociar... a gente faz mais pressão nos tribunais, eles vivem prorrogando; marcamos reuniões com o cara lá, ou ele é intransigente ou está viajando. E a imprensa? A imprensa, a qualquer momento pode mudar o foco das notícias se houver mais morte nas enchentes, nos desastres rodoviários, nas guerras da periferia, na matança das drogas ou nos peidos de alguma celebridade. E os políticos? Nenhum deles falou em projeto de lei pra gente!”
- Laurenciano! Pessoal, pessoal! Óia... Óia!!! – acorria esbaforido Burquinha com um papel na mão que apanhou do fax dum escritório de advocacia das proximidades – Mataram o Trindade. Atiraram nele... Ele tá morto! Morto!
- Não tem jeito mesmo pessoal. Nós não podemos evitar o inevitável: o negócio é greve. Aparecermos, só, não basta. É como sofrer com dor e não tomar remédio, ver a chuva e não se cobrir. Eles todos vão ficar nos levando em banho-maria até que desistamos e o grupo que formamos se enfraqueça e se acabe. Sou a favor da greve e quem estiver comigo, levante o braço, certo? – ergueu o orador agressivamente o braço.
Trindade era sepultador de uma cidade sertaneja do norte do país, que assumira a responsabilidade de organizar a categoria daqueles rincões. O recorte do jornal dizia:
Sepultador é morto durante confronto com a guarda civil – Nesta segunda feira, 4, Antonio Z., 29, conhecido por Trindade, morreu após ter recebido forte pancada na cabeça, durante confronto com a guarda civil.
Trindade tinha assumido a diretoria norte da Federação Nacional dos Coveiros - FENACOVEIRO, e com o grupo de inumadores da empresa operadora dos serviços funerários, VIAMORTES, promovia manifestação pacífica em frente ao Palácio do Governo.
Testemunhas afirmam que a ação da guarda foi truculenta, avançando sobre a massa pacífica sem motivação aparente.
No confronto Trindade e outros nove inumadores foram brutalmente atingidos com cassetetes e escudos.
Todos foram atendidos no Hospital AA. Seis foram liberados após atendimento e passam bem. Três estão em observação e, segundo os médicos, correm risco de morte.
Trindade não resistiu aos ferimentos e faleceu. Seu sepultamento será feito pelos próprios colegas na Igreja Bartolomeu – Ralinho, pois a concessionária VIAMORTES não permitiu que o corpo fosse enterrado em suas dependências.
Sua morte motivou a greve, indignação e sede de justiça. Todos ergueram os seus braços e decidiram pela greve.

GRACIAS ANDINAS