[CONTINUA]
Um minuto de silêncio eu peço
Aos que morrem da morte do corpo
Violentamente ou pela traição do tempo
Do Destino que reconsidera
Desencarnam
E que o deus de sua preferência,
Na confabulação com os demônios e os anjos
Trate da essência
Mas um minuto de silêncio também eu peço
Aos que morremos todo dia
Do pânico pelo futuro incerto
De ansiedade por um amanhã
Que jamais chega e não virá nunca
Um minutinho diário
A nós que morremos de carência de amor
De asfixia de desamor
Que morremos de carência de mãe e pai
De paixão e sexo
De amigo
De amar
Um minuto por dia
Aos que morremos da ilusão da imortalidade do instante
E transbordamos de emoções perversas
Que perdemos a prudência
De tanto medo irracional
E maldade sem conta
Assim monstros sem alma
Um minutinho apenas
Aos que morremos de querer comida, coito, proteção
Aos que desejamos que o bem nos alcance por milagre
Ou por magia
Que pensamos tanto em nada e tão pouco em tudo
E de tanta mesquinhez morremos
Em camadas, todo dia
Um minuto ao dia, o silêncio
Aos que servilmente nos soterramos nas leviandades
Que enganamos a vida com as ideias sem fundo
Do cotidiano insulso
De vã aparência de coisas
E morremos todos os dias
E nunca morremos
Eu peço um minuto de silêncio
Por todos e por nós
Porque depois do minuto
O silêncio será uma grita ensurdecedora dentro do peito.
[CONTINUA]
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
OLHOS DA MUSA
A
MISERICÓRDIA DO CRIADOR ESTÁ NA CRIAÇÃO
DE TEUS
OLHOS CASTANHOS, MISTERIOSOS
CINTILANTES
COMO O SOL NA ÁGUA DO MAR LÍMPIDO
E CLAROS COMO O AR
FORTES
COMO AS ROCHAS
E FULGENTES COMO AS ESTRELAS
SEGREDANDO
O AMOR
E GUARDANDO
O RECATO
PARA
DEITAR NA NOITE DA VOLÚPIA
A
AMANTE ENSANDECIDA,
LOUCA
DE PRAZER E LASCÍVIA
DE BOCA
MOLHADA
E VULVA
SUMARENTA
UIVA A
LOBA SOLITÁRIA
PERDIDA
NA BUSCA
DA ESPÉCIE
E ME
BEIJAS E ME ENGOLE
EU
SUMO, DESAPAREÇO
AMANHECE
EM MIM A VERDADE SIMPLES E SÃ
DE
TRABALHAR PARA ENGRANDECER AS POSSES
DESDE
QUE VOCÊ EXISTA
DE
LUTAR CONTRA OS MAUS POR NÓS DOIS
QUE NÃO
SOMOS MAIS QUE UM ÚNICO CORAÇÃO
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
A diversidade sexual, a letra fria da lei e o calor da realidade social
A diversidade sexual, a letra fria da lei e o calor da realidade
social
Julgava-me habitué
de certos lugares da metrópole, cuja época de noites românticas da minha
juventude estudantil nos convidava constantemente, a mim e aos amigos, a um bom
bate-papo com cerveja, invariavelmente, e a partidas de xadrez com muita freqüência.
Certa feita, adentrando o bar que nos acolhia
pacientemente nessas peculiares e prolongadas sessões, apinhado de um público
heterogêneo na ocasião, sentimos que a atmosfera pesava; hesitamos por algum
tempo antes de abrir o tabuleiro. Pressentíamos que algo desagradável iria
acontecer.
Nunca tínhamos visto o nosso bar com tanta gente
diferente. Na realidade nos acostumamos com a solidão do horário e
especialmente do lugar. Apenas seis companheiros de sonhos que poetizavam e liam,
jogavam xadrez e partiam na alvorada.
Mas naquela noite o pequeno espaço do bar continha
muitos casais gays, belos e exuberantes travestis, e também grupos
heterossexuais - estes, nítida e propositadamente afastados dos primeiros. Por
que pesava o ar? Perguntávamos silentes e a resposta se delineava na
possibilidade da intolerância, já que um brutamonte se referia aos homossexuais
com desdém, e àqueles pouco se lhe davam que suas espetaculosas e picantes
narrações incomodassem os machões.
Para encurtar o prefácio ao tema do texto, a briga começou quase no mesmo instante
do final da piada desenxabida sobre bichinhas
- contada pelo brutamonte; do ciúme do sapatão
que supôs um flerte entre sua namorada e um homem do outro grupo, e da bofetada
que um traveco aplicou num safadinho
que, a pretexto do exíguo corredor do banheiro, bolinou-o escandalosamente.
Saímos em meio a um infernal tumulto. Horas depois
rimos muito pelo inusitado dos acontecimentos. Porém, filosofando noutro botequim,
ponderamos sobre a delicada condição humana no trânsito dos sentidos e dos
desejos ante o imperativo das morais, das convenções, da educação e das leis.
Décadas passaram e eis que surge uma retumbante polêmica
jurídico-sociopolítica com inúmeros fatores: o PL122, o Estatuto da Diversidade
Sexual, as igrejas, o medo, o desrespeito aos direitos fundamentais do cidadão
e da pessoa humana, a discriminação, a urbanidade, as convenções sociais,
homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais...
Em linhas muito leigamente gerais o projeto de lei nº122
postula a inclusão de atributos de gênero, orientação sexual e identidade de
gênero, e ainda idosos e portadores de deficiência na lei contra o preconceito
e a discriminação racial 7716/89 que originalmente protegia os indivíduos
portadores de atributos de cor, raça, etnia, religião e procedência nacional, com
efeito de aplicação do código penal, de relações de trabalho e da vida civil.
Dispensada a pretensão de comentários técnicos,
para o que, aliás, não teria conhecimento e habilidade suficientes, fica o
registro de que não vejo que haja clareza bastante quanto ao que seria
realmente injúria, ofensa ao individuo e aos coletivos dos grupos incluídos, ou
seja, numa palavra, o que realmente seria uma atitude de homofobia, passível, então,
de penas tão graves. Além de “descobrir um santo para cobrir outro”! Exemplo:
impedir, recusar ou proibir o ingresso ou permanência em qualquer ambiente ou
estabelecimento público ou privado, aberto ao público. Ora, me parece que
rituais de fé e crença que não aceitem a condição homossexual em seu culto
terão de aceitá-la, e isso, prima facie
feriria direitos e garantias fundamentais dos indivíduos que não concordem.
Já no estatuto da diversidade sexual a coisa fica
ainda mais estranha quando pleiteia a supressão dos termos “pai” e “mãe” do
registro de nascimento e documentos oficiais; ou quando supõe que uma criança
ou adolescente possa vir a ter condição plena de decidir-se pela mudança de
sexo. Será?
À vista da amplitude, força e radicalismo dos
dispositivos legais (afinal trata-se de lei, regra; de processo civilizatório,
reengenharia social, redefinição de normas de união e relacionamento civil,
coerção e castigo, valores e liberdades – e, por que não?! - trata-se de mexer
com os deuses), os opositores das regras propostas alegam um desmonte da
família tal como se formulou culturalmente pelos séculos e séculos, segundo os
desígnios de Deus.
Às vezes me dá a impressão de que os que defendem tais
diplomas pretendem homossexualizar toda
a sociedade numa tacada só; por outro lado ouve-se a grita e a resistência, não
raramente truculenta, de heterossexuais. Tenho sincero receio de que dessa discussão
histérica decorra o sério risco do aumento da homofobia e – também, por que
não?! – da heterofobia.
Fato, no entanto, é que em 2013, no Brasil, foram
celebrados mais de 3mil casamentos homossexuais e que a parada do orgulho LGBT
atrai milhares de novos adeptos a cada ano.
No entanto, é fato estrondosamente mais trágico que
por ano são assassinados mais de 50 mil brasileiros (a maioria de jovens, negros
e pobres) e que o trânsito mata outros mais de 40 mil.
Sem contar que temos sistemas precários de educação
e saúde, uma relação fisiologista de poder, uma corrupção endêmica, uma péssima
administração pública, uma desigualdade social atroz, uma horrível seleção de
futebol (vai como referência de uma copa financeiramente, inclusive, desonrosa)
e um sistema eleitoral capenga e duvidoso.
Ou seja, parece que a acalorada e midiática
polêmica sobre homofobia é necessária, sim, porém, antes de acharmos que
estamos democraticamente tranquilos para fazer uma guerra parlamentar dos
sexos, precisaremos sair do boteco.
domingo, 9 de novembro de 2014
MACHO SEM MACHISMO E FÊMEA SEM FEMINISMO
MACHO SEM MACHISMO E
FÊMEA SEM FEMINISMO
Dia destes, minha filha - com quem faço dupla num feminismo positivo e
suave (sim, o homem pode ser feminista – aliás, é mais racionalmente feliz
quanto mais feminista for!) - deu-me a conhecer a quantas anda por aí essa
questão. “Pai, vê só isso!” e abriu alguns vídeos na internet em que se
mostrava uma militante brasileira dum movimento leste-europeu em dois momentos:
num, debulhando-se em lágrimas de ódio visceral contra os homens e, noutro,
confessando ter encontrado o amor de sua vida, um homem; em outro vídeo, em cujo
título se apresentava a palavra feminazi
um grupo musical formado por mulheres jovens pouco interessadas em make-up ou elegância declarando numa
letra sem muita melodia que tinham o direito de uso, por assim dizer, da vagina
e do aborto, e outras coisas mais que eu não quis ouvir.
Feminazi, de cara, me deixou em pânico, porque intui tratar-se de uma ilógica
sugestão da contração entre feminismo e nazismo. Impossível! Embora num
dicionário digital haja a definição de militante do feminismo radical,
extremista e misândrico. Na rede consta também que tal termo teria sido
empregado pelo apresentador americano de rádio, nos anos de 1990, Rush Limbaugh,
se referindo a protestos de mulheres contra um projeto de lei que permitia aos
patrões a cobertura parcial de planos de saúde, com redução na proporção dos
preços de anticoncepcionais. O fato é que o neologismo parece ter pegado. O
último vídeo era um blog de uma moça bonita esclarecendo que feminismo não é o
oposto do machismo, que nada tem a ver com humanismo, com misandria, com usar
ou não maquiagem, com andar de salto ou dar de quatro.
O curioso é que toda essa discussão parece não existir para muitas
garotas que ainda brigam aos sopapos e puxões de cabelos por um menino; jovenzinhas
que acham o máximo excitar a rapaziada nos bailes ou postar a anatomia
curvilínea em trajes mínimos, recadinhos românticos e selfies com biquinhos no
facebook. Não parece interessar tampouco às incontáveis mulheres que desmoronam
ante os encontros e desencontros dos casais das novelas. Curioso!
Bem, sem entrar no aspecto histórico das conquistas das mulheres – votar
e ser votada, trabalho e profissão, política, educação, arte, enfim, há uma
maravilhosa história ainda em curso de lutas e vitórias! – quero apenas dizer
rapidamente duas coisas: onde percebo que nós, pessoas dos dois sexos estamos
errando na escala evolutiva e, segundo, fazer um apelo a toda gente: que não
radicalize. Relaxe um pouco! Nem tanto ao céu e nem tanto ao inferno! OK?!
A coisa pode ter começado com um mito apócrifo de que vasos foram postos
no sol, um rachou e outro estufou, e desde então o mundo é o mundo com macho e
fêmea, fazendo-se pesado à mulher pela longeva organização social patriarcal,
mas também pela teimosia de machos mandões e fêmeas odientas que não
compreendem que nada seriam um sem o outro, e levam então a possibilidade de um
diálogo para o campo feroz das hostilidades em desespero de causa. Eis nosso
erro: sermos machos sem deixarmos de ser machistas ou fêmeas sem deixarmos de
ser feministas, buscando num sufixo, a alternativa à simplicidade de nossa existência.
A segunda e rápida coisa a registrar é que ao invés de lutarmos por
igualdades inconcebíveis, definitivamente achemos o que há de interesse comum,
direita e indiretamente a todos: a capacidade intelectual e construtiva dos
indivíduos e da sociedade, o absoluto acesso aos direitos e deveres
(trabalhistas, da economia doméstica, da concepção e educação dos filhos,
etc.). Finalmente, que não existiríamos um sem o outro. A humanidade não
existira senão pela infinita misericórdia de Deus que criou estes seres à sua
imagem e semelhança – “homem e mulher os criou”.
Proponho, portanto, que nós homens e mulheres, respeitemo-nos como seres
morais, antes de nossas necessidades, naturais ou culturais, de sexo e sensação
de poder.
domingo, 2 de novembro de 2014
ELEIÇÃO DA REPÚBLICA
ELEIÇÃO DA REPÚBLICA
Ele
estava em casa quando uma comissão militar o chamou para liderar a revolta, alertando
que iam prendê-lo e que seu rival no amor de uma bela dona tornar-se-ia
Presidente do Conselho de Ministros em breve. Então vestiu a farda, atravessou
a pé a praça até um quartel do outro lado, onde lhe deram um cavalo. Montou, tirou
o chapéu e proclamou a república. Depois desceu do cavalo e foi para casa. No
estertor do Império, defronte ao General da Guarda a quem o principal assessor da
monarquia pedia guarida invocando a coragem do bravo militar, o conselheiro
ouviu daquele oficial que no Paraguai havia inimigos enquanto ali todos eram
brasileiros.
Assim
teria sido a Proclamação da República, dia 15 de Novembro de 1889. As
personagens são o Marechal Deodoro da Fonseca, o General Floriano Peixoto e o
então chefe do Conselho Ministerial, Visconde de Ouro Preto.
No
avanço de 125 anos da República Federativa do Brasil chegamos ao acirrado pleito
eleitoral de 2014. Porém, parece um momento anti-republicano gerado pelo fígado
de alguns grupos que, em alguma medida traz um quêzinho das expectativas de
antanho, quando república era a necessária maneira de conduzir a vida política e
os interesses socioeconômicos naquele fim de século XIX. Hoje parece que querem
o contrário! Na era da globalização, dos mercados financeiros, das redes
sociais na internet vê-se que os fazendeiros ressentidos pelo prejuízo da
revogação da mão de obra escrava foram substituídos pelo capital sedento de
lucro; a igreja cristã, católica, que se retirara magoada com o Estado, hoje
matizada em muitas denominações, deseja mais força nos jogos de poder; os
burgueses florescentes hoje são a classe média em busca do primeiro milhão; os
crioulos e liberais que desejaram o sufrágio universal em lugar do voto censitário
foram trocados por brancos padrão norte-americano-europeu que não confiam no
voto dos mestiços e dos pobres; em lugar das mulheres belas e silentes, novas
mulheres, belas certamente, filmam graves xingamentos públicos.
A
diferença é que D. Pedro II (igualmente mal assessorado) gozava de maior
respeitabilidade pessoal que os nomes de hoje. Tenho esperança de que isso não
faça a diferença, pois se lá a República era urgente, aqui a Monarquia é
inconcebível.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Vamos parar de criancice?
Vamos parar de criancice?
Pensei
na letra da música Brasil, do Cazuza,
como uma ode, um manifesto eufórico, uma homenagem à grande mobilização (e
mesmo à expressiva abstenção) popular no pleito eleitoral do ano.
Mas
as eleições foram o fogo de rastilho da maior demonstração de quebra de
hipocrisia dos dias desengraçados da nossa vidinha nacional.
Portanto,
resolvi deixar a letra pra lá porque considerei a incrível hipótese de que
algum maníaco da conspiração mundial pudesse vir a abastecer a internet com vídeos,
por vezes grotescos, sobre o possível assassinato do poeta-cantor por
potestades “paracapitalistas donas do mundo”
- daí minha intenção seria desprezada.
Também
desisti da letra ante a possibilidade de que ela não só fosse contraproducente como
poderia acabar servindo de munição de revide para os valorosos destinatários do
texto – os pretensos militantes ideologizados de ocasião - a quem gostaria de registrar
e enaltecer a honestidade, mas para cujos vícios, no entanto, desejo expressar
meu repúdio.
Repudio
porque tenho o direito, e todos o têm: o direito de livre-expressar o próprio juízo
sobre o que nos cerca, e até das coisas sobre as quais muitas vezes nem sabemos
direito como funcionam.
Mas
veja! Não entender como funciona um mecanismo qualquer ou por que motivo um pensamento
nasceu, não nos permite desautorizar ou atacar ofensivamente seu autor. Ignorar
que uma lei exista, com prescrição de pena e tudo, não nos isenta de sentir
seus efeitos.
Então,
caros príncipes e princesas, nobres e plebeus, tomem
cuidado com o que estão postando nas redes, pois numa república em estado
democrático de direito somos todos cidadãos!
Vamos
primeiro ao elogio, que faço rasgado e sincero: parabéns a todos que saíram do
armário da convivência imbecilizante do politicamente correto. Ora, dizer que o
Brasil é um país de iguais oportunidades para seus multicoloridos habitantes,
que sobre a cabeça desse povo dégradé paira e brilha o sol da democracia,
igualdade e respeito?! Mentira! Que o mundo é justo e que nós desejamos, do
fundo do coração, que todos os desafortunados e famintos se abasteçam,
enriqueçam e participem dos mercados?! De plenos pulmões digo: mentira!!! (com
muita exclamação)
Desenganados
os que apregoaram a morte da ideologia: ela existe.
Pouquíssimos
de nós sabe o que é ou para que serve a bolsa de valores, a taxa de câmbio, a
taxa Selic, o spread bancário, a inflação, a previdência social, o imposto de
renda, o fundo de garantia, as relações exteriores, a exportação e a
importação; o que seria recessão ou produtividade, república presidencialista, ou
programas e políticas de governo e de estado; ou leu a constituição, ou alguma
vez discutiu o que é educação, cultura, habitação e segurança; ou se importou
com a composição dos preços das tarifas públicas; nem discute política ou
partido ou fundo de campanha, nem mobilidade urbana; ou foi alguma vez a alguma
sessão parlamentar, ou sequer entende o que representa estatizar ou privatizar.
Na verdade, a maioria de nós não sabe e nem quer saber. Uma parte maior ainda
tem raiva de quem sabe e odeia política!
Quase
toda riqueza está em poucas mãos. A maioria de nós é zé povinho que luta, trabalha, estuda e corre atrás de dias
melhores para nós e nossos filhos e filhas.
De
repente um camarada cheio de grosseria e lábia, com reputação pública duvidosa
e questões mal explicadas, desconhecido no amplo cenário nacional, personifica
a elite com dentes na boca – como disse um cartola do futebol -, que fala ou
arranha outro idioma qualquer e atropela sem misericórdia a língua mãe; vai à
balada, janta fora, toma um pileque de vinho e vive botando selfie na porcaria do
facebook. Nota: a elite é relativamente pequena. Outra nota: a elite quer e
precisa ser por natureza, pequena. Senão não seria elite!
Do
outro lado uma senhora [embora com uma inegável história de luta contra a
ditadura militar no Brasil – diga-se de passagem: a esmagadora maioria de nós
também não sabe do que se trata] que tem evidentes... não... gritantes
pendências sobre corrupção em seu governo, incorpora a renovação e é tida como
redentora do país. Nota: é a maior parte do país – disse do país e não dos
votos, OK?
Caraca!
Que enormidade! Porque houve estreita diferença do número de votos não
significa que existem dois grupos proporcionais a rachar o Brasil! Que absurdo!
Ora, faça-me o favor!
Existem,
sim, pessoas infantis que não aceitaram a soberania da urna.
Caso
haja suspeita de fraude, que ela deva ser apurada com caminhos e providências
adequadas.
Príncipes e princesas, nobres e plebeus,
procurem seus representantes político-partidários, registrem petições nas
autoridades públicas competentes, mas parem de entupir as redes com rancor e
ódio porque não ganharam o presentinho de natal!
Desse
jeito fica parecendo o Lord Farquaad no primeiro filme do Shrek, que faz um
esforço insano para ser rei num mundo perfeito, do qual devem ser expurgados os
desinfelizes personagens dos contos de fadas. Faça-me o favor!
Vejam
os protagonistas das redes nestes tempos: a histeria da dançarina (disseram que
é dançarina) no yutube, ou do pedante colunista barriga-verde da Globo, ou da
gaúcha chorona que veste seus macaquinhos de pelúcia com a camisa do time adversário,
mas que não se considera racista. E as redes sociais em si, uma onda em que
muitos covardes surfam escondendo seus ranços; clamando por vingança a um deus
minúsculo qualquer; amaldiçoando conterrâneos, insultando compatriotas, compartilhando
memes risíveis e infamantes, e frases
apócrifas, e estatísticas falsas; escamoteando – ou não – virulentas ideias esnobes,
sugestões violentas, intolerantes, antidemocráticas, racistas, xenófobas.
Também
os adversários rubros inflamados, pretensamente libertários, militantes
igualmente imbecilizados por uma causa (qual é a causa mesmo?), não raro
sopitando no peito o ressentimento por não serem melhores e mais abastados consumidores.
Dois
grupos numa disputa nonsense por
causa de nomes circunstanciais, clãs ancestrais combatendo por um deus de pau,
um ídolo de ferro, um avatar, um mito, um messias.
Dois
ângulos do mesmo problema: massa de manobra, míope, em eterna crise existencial,
sedenta de autoestima e de orgulho pátrio; um coletivo carente de um país para
chamar de seu, que o olhe, que o cuide, que o ame, e a que ele deseja amar.
Parecemos
crianças numa creche ou num orfanato, desesperadas para voltar para casa, para
os braços dos pais, ou encontrar alguém que nos dê o afeto e a proteção de uma
família.
Mas
a letra da música tem no primeiro verso do estribilho: “Brasil, mostra a tua
cara”!
A
cara está aí, e não é muito bonita, não! Os habitantes daqui não se entendem
como povo porque não entendem o país como uma nação.
O
Brasil é grande, dividido e subdividido em unidades políticas, sotaques,
culturas, cores, sons e imagens. Tem gente boa e gente ruim como todo lugar.
Está sujeito a imposições dos mercados internacionais como todo o planeta, e
tem graves problemas domésticos como o mundo.
Vamos
cooperar? Vamos parar de criancice?
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